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Em 1968, canção de amor inter-racial entrava para as paradas nos EUA

As tensões raciais nos EUA haviam atingido um ápice em 1968 com a morte do pastor negro Martin Luther King. Ainda assim, um cantor branco e uma cantora negra decidiram que era uma boa ideia se unirem no palco para cantar uma canção de amor.

A simples presença de um casal inter-racial poderia ser considerada criminosa em muitos estados americanos. Contudo, em maio de 1968, Billy Vera e Judy Clay subiram no palco do teatro Apollo, localizado no bairro do Harlem, predominantemente de população negra na época, para cantar a música “Storybook Children”, um marco histórico da cultura estadunidense.


Sucesso que surpreendeu e chocou a sociedade

Vera e Clay no palco do teatro Apollo. (Fonte: Reprodução: Billy Vera)Vera e Clay no palco do teatro Apollo. (Fonte: Reprodução: Billy Vera)

"Storybook Children" é uma canção que fala de duas pessoas que vivem em mundos opostos e se questionam o porquê disso. Na letra, elas se perguntam: por que a vida não pode ser tão simples como em um livro infantil?

No momento da apresentação no teatro Apollo, essa canção já era um sucesso, mas ninguém sabia que Billy Vera era um homem branco. A música que estava no topo das paradas de sucesso, emocionando brancos e negros, era um sopro de esperança em um país que tentava superar o racismo.

Um ano antes, o casamento inter-racial havia sido descriminalizado

Casal precisou ir à Suprema Corte para poder ficar junto. Fonte: Reprodução: Gray Villet/ Café História)Casal precisou ir à Suprema Corte para poder ficar junto. Fonte: Reprodução: Gray Villet/ Café História)

Em 1967, apenas um ano antes da morte de Luther King e do sucesso de "Storybook Children", a Suprema Corte dos EUA decidiu que o casamento entre brancos e negros não era mais ilegal.

O caso que motivou a mudança ficou conhecido como “Loving vs. Virginia” e tratava do processo do casal Richard e Mildred Loving — um homem branco e uma mulher negra que se conheceram no Ensino Médio, casaram-se e foram processados e presos por isso.

Esses fatos ilustram o motivo da união racial em torno dessa música ser tão significativo.

Crianças inspiraram a canção

Chip Taylor e Billy Vera foram os compositores da letra. Em entrevista à BBC, Taylor contou que a inspiração para a música veio depois de ver duas crianças, uma negra e uma branca, andando de mãos dadas em um campo aberto nas proximidades de Nova York: "Era uma época em que isso não era tão aceitável e era uma sensação tão boa, como um livro de histórias", disse o autor.

Sucesso, preconceito e esquecimento

Apesar do bom resultado da canção junto ao público, executivos resistiam em dar espaço para a dupla na televisão, alegando a possibilidade de fuga dos patrocinadores. Alguns programas gravados com eles nunca foram ao ar.

Ainda assim, eles fizeram um show ao vivo em Pittsburgh e uma apresentação em um programa de TV de Detroit. Além disso, Clay engravidou na época e isso também impediu que eles tentassem fazer uma turnê juntos.

Contudo, é importante frisar que eles não foram o primeiro casal inter-racial a gravarem juntos, embora tenham sido o primeiro a fazer grande sucesso. Em 1952, a cantora negra de R&B Sister Rosetta Tharpe e o cantor branco Red Foley gravaram a música gospel “Have a Little Talk with Jesus”.

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