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Entenda como Freud criou o maior mito sobre o orgasmo feminino

Os estudos de Sigmund Freud, pai da psicanálise, versaram sobre a sexualidade humana em diversos aspectos. E uma das ideias de Freud (que se perpetuou por décadas) tem a ver sobre o funcionamento do orgasmo feminino.

A ideia difundida por Freud era de que os orgasmos clitorianos seriam "inferiores", indicando imaturidade sexual e psicológica — e, por vezes, até a presença de doenças mentais. O orgasmo "correto" seria o vaginal, mais raro em boa parte das mulheres.

Freud escreveu sobre isto em um texto chamado Três Ensaios sobre Teoria da Sexualidade, publicado em 1905, e talvez nem imaginasse que sua proposta colocaria um rótulo sobre a sexualidade feminina que seria repetido por médicos durante muito tempo.

A explicação de Freud sobre o orgasmo clitoriano

(Fonte: Doulcemarie/Wikimedia Commons)(Fonte: Doulcemarie/Wikimedia Commons)

A obra freudiana sedimentou a ideia de que o prazer de uma mulher madura deveria estar centrado na vagina. Vale lembrar que, no século XIX, época em que Freud concebeu parte de seus textos, havia vários especialistas (homens) debatendo sobre o clitóris, um órgão pequeno e muito sensível cuja única função, pelo que se sabe, é promover o prazer nas mulheres.

Estes estudiosos estavam muito "preocupados" com o papel que o clitóris podia ter na vida de suas esposas e das mulheres em geral. Havia o medo de que elas se masturbassem compulsivamente, tendendo a um excesso que, supostamente, as enlouqueceria.

Foi neste contexto que Freud categorizou os orgasmos vindos do clitóris como infantis. A explicação do psiquiatra era a seguinte: diferente dos homens (que desde a infância tinham contato com uma mesma zona erógena, a glande), as mulheres transfeririam essa zona erógena à medida que crescem para a vagina.

Quando isso não acontece a contento (ou seja, quando a mulher adulta não tem orgasmos vaginais), Freud entendia que esta jovem seria frígida. Nota-se, então, que a concepção freudiana sugere um padrão de sexualidade heterossexual, baseado na penetração.

As consequências das ideias de Freud

(Fonte: Authenticated News/Getty Images)(Fonte: Authenticated News/Getty Images)

Os danos trazidos por esta ideia foram grandes — para as mulheres, claro. O ponto de vista de Sigmund Freud foi levado em consideração pela medicina por décadas, e influenciou milhares de mulheres a se sentirem incompletas ou pensarem que seus orgasmos clitorianos não eram "reais".

Esta ideia começou a se quebrar apenas na década de 1950, quando o sexólogo americano Alfred Kinsey desafiou o cânone definido por Freud. Após entrevistar quase 20 mil homens e mulheres, Kinsey descobriu que a maioria das mulheres tinha orgasmos pelo clitóris. Menos de 20% relatavam ter orgasmos pela vagina.

Kinsey chegou a uma conclusão interessante: a insistência no orgasmo vaginal tinha a ver com uma presunção de que as mulheres precisavam "valorizar" a genitália masculina. Mas suas ideias, publicadas em 1955, foram prontamente rejeitadas — aparentemente, a proposta de Freud sobre a imaturidade sexual feminina seguia forte.

Rejeições à concepção de Freud sobre o orgasmo

(Fonte: Robert Doisneau/Gamma-Legends Coleção/Getty Images)(Fonte: Robert Doisneau/Gamma-Legends Coleção/Getty Images)

A rejeição à ideia de Freud se elevaria por fim a partir de escritoras feministas que julgavam o psicanalista como sexista. Esta foi a tese defendida por Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo (1949), por Betty Friedan em A Mística Feminina (1963) e Kate Millett em A Política Sexual (1970). Elas apontavam que essa obsessão de Freud pela vagina acabava por subjugar as mulheres ao taxá-las de frígidas.

As autoras também atentaram ao fato de que a teoria foi endossada por estudiosos que também era homens heterossexuais que, por séculos, pareciam não entender (ou aceitar) que mulheres pudessem ter prazer fora da penetração. Hoje já há consenso de que a maior parte das mulheres não atinge o orgasmo da mesma forma que homens - e que, diferente do que sugeriu Freud, isto não é uma desvantagem feminina.

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