A história de Artemisia Gentileschi, uma das primeiras pintoras bem sucedidas que se vingou de seu estuprador pela arte

28/07/2022 às 10:002 min de leitura

A pintora barroca italiana Artemisia Gentileschi, que viveu durante o século XVII, produziu uma obra contundente e que retratava seguidamente a vingança das mulheres diante da opressão causada por homens. Suas obras, portanto, não focavam na beleza e na delicadeza, temas que costumam ser considerados "femininos".

Ousada, Artemisia criou pinturas que expressavam violência e raiva. O que nem todo mundo sabe é que essa temática foi inspirada por sua própria história. A artista foi estuprada aos 18 anos por seu professor. Após ser preso e julgado em 1612, ele foi libertado, e Artemisia passou toda a sua carreira canalizando sua angústia sobre esse fato em sua arte.

A história de Artemisia Gentileschi 

(Fonte: Tete a Tete)(Fonte: Tete a Tete)

Artemisia Gentileschi nasceu em Roma em 8 de julho de 1593, e aprendeu arte com seu pai. Crescendo num ambiente profícuo como a Itália, a menina cresceu vendo a obra dramática do mestre do barroco Caravaggio, que era amigo do seu pai — e que inclusive deu algumas orientações sobre o seu trabalho.

Seu pai contratou um artista chamado Agostino Tassi para dar aulas para a filha, mas nunca imaginaria que, um dia, o pintor estupraria a adolescente, causando um trauma insuperável em Artemisia.

Durante o julgamento do estuprador, que durou sete meses, a jovem testemunhou: "ele então me jogou na beirada da cama, me empurrando com a mão no meu peito, e colocou um joelho entre minhas coxas para me impedir de fechá-las. Levantando minhas roupas, ele colocou a mão com um lenço na minha boca para me impedir de gritar".

Artemisia, inclusive, reagiu ao estupro, agredindo o órgão sexual de Tassi e jogando uma faca no criminoso, que conseguiu se esquivar. No entanto, durante o julgamento, a jovem foi novamente revitimizada e chamada de "prostituta insaciável". O Papa Inocêncio X interveio em prol do artista e ele foi solto.

A obra gerada a partir da raiva

(Fonte: Wikimedia Commons)(Fonte: Wikimedia Commons)

Mesmo com a liberdade de seu estuprador, Artemisia Gentileschi achou outra maneira de se vingar: ela dedicou o resto de sua carreira pintando mulheres fortes e que revidavam a violência que sofriam.

Um dos grandes quadros de Artemisia foi gerado a partir do estudo da história bíblica de Judite e Holofernes. Ela conta o caso de uma viúva que entra furtivamente na tenda do general Holofernes. Após embebedá-lo, Judite decapita o homem para conseguir libertar o seu povo.

A história é muito conhecida e gerou várias versões artísticas, como as pinturas feitas por Caravaggio e Goya. A obra de Artemisia Gentileschi, que é bastante explícita, data de 1620. 

Ela criou um retrato violento e cheio de sangue, diferente das visões de outros pintores. Diferente da obra de Caravaggio, na de Artemisia, Judite não demonstra qualquer hesitação em seu rosto. Pelo contrário: ela parece raivosa e decidida.

Noutra obra conhecida, chamada Suzana e os Anciãos, Artemisia enfatiza a angústia de uma jovem que está sendo perseguida por dois velhos. Ela aborda outra história bíblica, também retratada por outros artistas — que, ao contrário da pintora, exibiam uma Suzana paqueradora e até oferecida. No quadro de Artemisia, a mulher está claramente apavorada pelo assédio dos homens.

A vingança pela arte

(Fonte: Das Artes)(Fonte: Das Artes)

Ao longo de sua carreira, Artemisia Gentileschi seguiu retratando mulheres fortes, incluindo assassinas. Ela retratou Jael, uma mulher que matou Sísera para libertar Israel, e Lucrécia, que cometeu suicídio após ter sido estuprada. A artista também pintou Cleópatra, Maria Madalena e a Virgem Maria, além de fazer vários autorretratos.

No século XVII, Artemisia era considerada a artista mais famosa de toda Europa. Em 1616, ela foi convidada para a Accademia del Disegno, a mais prestigiosa associação de artistas de Florença. Foi a primeira mulher a obter este feito.

Assim, por meio da arte, Artemisia Gentileschi obteve poder e autonomia sobre sua própria história, rebelando-se sobre o destino triste que poderia estar restrito a ela.

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